segunda-feira, 14 de maio de 2018

14 de Maio (Por Ernesto Xavier)

Eu sempre me pego pensando naquele 14 de maio. Faço um projeção do que deve ter se passado na vida de milhões de negros que foram escravizados por toda a vida e que agora estavam "livres". Sim, tão perigoso quanto o sequestro, encarceramento e trabalho forçado, foi a libertação nos moldes que encontramos no Brasil.

Calma. Não se precipite. Não estou dizendo que deveríamos permanecer escravizados. Claro que não.

Mas já pararam para pensar em como isso se deu?

O sistema já estava falido. A lei Áurea não foi uma novidade.

Ela era a consolidação da derrota escravocrata. Já tínhamos negros libertos. Os que sobreviviam, claro. A média de vida de um negro na lavoura era de 7 anos. Muitos começavam ainda crianças. Morriam cedo. As condições eram degradantes. A sociedade compactuava com tudo. A Igreja também. As leis, ou seja, o judiciário, também. O governo também. As "pessoas de bem" também.

Matar um negro não te levava para o inferno. Negro não era "gente". Não tínhamos alma.

Já pensou o que é ser sequestrado em sua terra, levado para um local totalmente desconhecido, com uma língua diferente, em porões fétidos e insalubres, acorrentados? Trabalhar no sol quente, alimentar-se mal, ser tirado de sua família, perder tudo que tinha? Criar uma relação com aqueles que estavam ao seu lado era uma necessidade. Como fazer isso quando aqueles eram de grupos rivais na terra de origem? Com uma língua diferente? Com deuses diferentes?

Como humanizar-se quando se vê seus filhos serem tirados de perto de si, quando sua mulher é estuprada, quando se é açoitado?

Então chega um lei e diz que aquilo tudo acabou. Alívio.

Mas onde viver? Como sobreviver? Voltar para a terra de onde veio? Como? E quando já se nasceu naquela terra que ainda lhe parece estranha?

Como recomeçar?

Analfabeto. Sem casa. Sem trabalho. Desumanizado.

Ou alguém acha que do dia para a noite a sociedade passou a ver o negro como humano? Passou a achá-los legais? Passou a ama-los?

Então chegaram uns pobres da Europa. Brancos. Que recebiam lugar pra morar, um pedaço de terra muitas vezes, um trabalho, não eram forçados a trabalhar ou açoitados, tinham a cor de pele admirada, eram considerados mais produtivos e inteligentes, estavam com a família. Enquanto aqueles negros nada disso recebiam.

"Vamos dar moleza para esses negrinhos? Jamais."

E isso foi de geração em geração.

As periferias, cortiços e morros ocupados pelos negros libertos. Grupos e mais grupos saíam dos interiores para as capitais em busca de trabalho e moradia. Ali nasciam os morados de rua, os desvalidos, os marginalizados.

Ah, aquele 14 de maio. Uma liberdade aprisionante. Presos a uma terra que não era deles. Jogados propositalmente ao léu para que morressem. Sim, está documentado: pensavam que em 100 anos não existiriam mais negros no Brasil.

130 anos depois cá estamos. Vivos e ainda firmes na tentativa de reparar os estragos que nos fizeram nos últimos 500 anos. Resistir é preciso.

Dizem que é vitimismo, que vemos racismo em tudo, que podemos chegar a qualquer lugar apenas por nosso esforço. Mas quando vejo as filas de desemprego, os presídios, os manicômios, o IML, as favelas, eu vejo um mar negro. Vejo o 14 de maio se repetindo dia após dia, como se parados estivéssemos em uma data sem que pudéssemos sair dela.

Quero chegar aos dias seguintes. Quero ultrapassar a fronteira do engenho de cana-de-açúcar e caminhar com meus irmãos por uma terra em que possamos chamar de nossa.

Ainda somos estrangeiros em um país que não nos quer.

Ernesto Xavier é ator, jornalista e escritor. Autor do livro "Senti na pele".



A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão




quinta-feira, 12 de abril de 2018

Fim da Linha para a Corrupção (Por Francisco da Zanzibar)

Chega! 

Eu queria meu Brazil de volta e finalmente consegui! 

Acabou esta merda de corrupção neste país livre, democrático e cheio de gente feliz. 

Não faz o menor sentido milhões de pessoas louvarem um paraíba que não sabe nem roubar direito, com uma porra dum apartamento cafona de merda que nem era dele. 

Como pode esse homem querer governar o Brazil? Isso é inaceitável! É um paraíba! Quem tem que mandar é rico que sabe se vestir, que tem presença e que saiba alinhar as minhas ferraduras.

Precisamos de profissionais de verdade para construir a nassão (sic) que merecemos. 

Para isso, precisamos usar o melhor que temos: políticos traficantes com seus helicópteros cheios de cocaína, juízes fascistas e acovardados, empresários corruptores, polícias e demais forças rendidas, capachos estadunidenses, redes de TV e imprensa escrita 100% prostituídas e contra os interesses da população, pastores bandidos e atores pornô de quinta categoria formando openeão (sic). 

Do pó viemos, ao pó voltaremos. Claro, também precisamos de cem milhões de idiotas que riem de tudo feito hienas e acham ótimo, porque é isso mesmo. O sistema não funciona sem uma grande massa de imbecis a serviço dele. 

Não basta ser imbecil: é preciso levar chibatadas do senhor feudal e ficar satisfeito, feliz. E daí que tem gente morrendo nas ruas? 

O que importa é ter smartphone, nudes, gatonet, latão na mão e muito "uhuuuuuu!". Foda-se o outro: não fui eu que fiz este mundo e não tenho culpa de quem ele é. Acabou a corrupção. Agora podemos ver toda noite o jornal da TV feito cachorros espiando frango assado na padaria, enquanto um corno de voz imponente lê as ordens de seus patrões. 

Estamos em abril, precisamos correr com a nossa sonegação do imposto de renda, porque aí sobra algum pra gente gastar no shopping. Daqui a pouco tem Copa do Mundo: se o patrão escravagista não liberar o horário pra ver os jogos, será que alguém descola um atestado médico? 

Ah, quando uma mulher negra for fuzilada a gente aplaude. Afinal, era puta, sapatão, comunista, mulher de traficante e nós sabemos de tudo: nosso QI não tem quatro patas à toa. 

Foi o que nos ensinou o nosso grande líder, um liberal que passou a vida inteira pendurado no saco do Estado, e que quer a morte dos veadinhos mas usa penteado de garoto-moça. Daqui a pouco a gente assiste às aulas on line de Facebook e Twitter. 

Mais tarde tem intensivão do Fantástico Fascismo. A gente olha a internet e as bancas de jornais, tem aquelas manchetes com letras gigantescas e então pensamos "Nossa, que escândalo! Ainda bem que a imprensa é 100% isenta, não tem partido nem interesses e está sempre do lado do povo". 

Finalmente o meu Brazil está de volta. 

Mas o que eu queria mesmo era ser dono daquele apartamento com 50 milhões que não deu em nada. Aquilo deve ter sido um boi de piranha: pegaram parte do dinheiro em um, deixado de propósito lá, e levaram o "resto" para outros. 

Emprego de salário mínimo eu deixo pra essa gentinha aí, que deveria trabalhar de graça pra mim.

Este é um país para homens de terno, brancos, de bem, em nome de Deus e da família, cabelos gomalinados e pastas recheadas de dólares, mandando uma banana na cena da novela enquanto milhões de otários aplaudem e saúdam o Carnaval. 

A corrupção acabou. 

O desemprego, a violência desmedida, a ignorância e a incapacidade de pensar no país como uma sociedade igualitária, não. 

Mas foda-se: agora podemos descansar em paz, deitados em berço esplêndido da maior senzala multicolorida voluntária e ignorante do mundo.


Francisco da Zanzibar atualmente é avesso a redes sociais e qualquer tipo de tecnologia, ainda escreve suas colunas numa máquina de escrever, que segundo ele: "Para não perder a ternura jamais..."










sábado, 17 de março de 2018

O Fardo em cima de Marielle (Por Dereck Duque Estrada)

Vou tirar um pouco o foco de cima da Marielle.

Você, você mesmo que acha um absurdo existir direitos humanos, que acha que bandido não deve ter direito a nada a não ser a morte. 

Eu entendo seu sentimento, já pensei assim, já devo ter dito bem feito quando morre alguém que luta por direito de marginais também, mas espera aí , o que é o direito humano? Você sabe?

Você sabe o que é feito quando não estão relatando abuso de autoridade? Pois é, eu não sabia, mas agora eu sei, talvez seja essa a diferença entre a gente nesse exato momento.

Sabe, no asfalto, perto da principal, tudo é tranquilo e suave, embora ultimamente nem tanto, mas lá em cima polícia enfrenta um inimigo que eles nem sabem de onde vem e usam qualquer meio para cumprir a missão. 

Sabe o que isso quer dizer? Opressão. Não me entenda mal, não estou dizendo que toda operação tem violência, mas ela existe e eu não tô falando de violência contra bandido, estou falando de ataque contra moradores da favela, pessoas trabalhadoras que vivem nessas zonas de violência. O morador de favela tem medo do tráfico, mas também tem medo da polícia.

Quando começa o confronto, mais um morador morre.

Policial também morre, traficante também. E sabe o que acontece com a criminalidade? ELA SOBE!

Sim! É isso que eu tô te dizendo, a violência se intensifica. E com mais violência temos mais gente morta, policial, morador traficante, mas até aqui não tem problema, sabe por que?

Porque é pobre morrendo pelo confronto do pobre contra pobre que deveria proteger o pobre que morreu.

Se uma operação termina com um morador morto, a polícia falhou gravemente.

Se a operação termina com um policial morto a polícia falhou gravemente.

Se a operação termina com um traficante morto, a polícia falhou gravemente.

Sabe por que? Porque a função da polícia é proteger e não matar.

Mas se a morte fosse em legítima defesa é aceitável, mas entenda, isso é uma falha.

Por que isso é uma falha? Porque não deveria ser necessário isso.

Como tornamos isso desnecessário então?

Tirando as armas do morro.

Se uma arma chega no morro ele não comprou no camelô da esquina, ela veio de fora , entrou na fronteira atravessou o país e finalmente chegou na favela. Sabe o que isso nos mostra, uma incompetência de primeira dos órgãos de segurança pública . Se o fuzil e munições não subirem pro morro , sabe quantos policiais iriam morrer? ZERO!

Mas o problema da incompetência da segurança publica no país é maior que somente incompetência, tem corrupção e é nesse ponto onde o esquema é feito de forma sensacional.

O tráfico pra se manter trabalha em conjunto com altas patentes, das polícias (todas sem exceção), com vereadores, deputados, prefeitos, governadores, senadores, ministros entre outros.

Novamente, não estou generalizando, estou dizendo que a máquina tem um alcance maior do que você pensa, estamos falando de grana e quem é corrupto vai fazer o que lhe mandam por dinheiro.

Pronto o esquema de armamento está montado, se alguém for pego, vai ser o pobre cabo e um outro patente baixa que vão levar a culpa em prol do esquema.

Se você conseguiu acompanhar até aqui, vamos continuar, já definimos que a violência é coordenada com níveis acima do estado brasileiro.

Agora vem a pergunta chave, porque fazem isso?
Resposta: Poder, mais violência aumenta a sensação de insegurança , mais insegurança gera uma insatisfação da população com esse setor, insatisfação com esse setor gera uma solução, "bandido bom é bandido morto".

Cara essa frase é de uma safadeza tão grande que parece piada. Sabe qual é o problema dela, ela só se aplica pro traficante.

Ninguém quer degolar o Aécio pelo helicóptero de coca, ninguém procura saber quem foi o responsáveis por permitir que arma do exército fossem pro morro.

Ninguém quer saber quem são os bandidos fardados ou de terno.

Sabe por que?
 
Porque estamos com medo e medo cega.

A gente só quer se sentir um pouco mais seguro , mas não tá rolando então a gente pede pra matar mais , como se estivéssemos tratando uma praga que ataca nosso jardim.

Mas irmão, não adianta a máquina não quer que isso acabe porque você com medo é mais um voto para política de extermínio e mais um mandato pro deputado/vereador/senador que não faz nada pela sua vida.

E nós ficamos alienados, agredindo quem na verdade, sem que soubéssemos, estava ali presente lutando pela gente também.

Descanse em paz Marielle.

A luta não é só aqui, a luta é na rua.

#MariellePresente


Dereck Duque Estrada é Engenheiro, cidadão e crítico em política. 
Texto com revisão de Thiago Muniz.














quinta-feira, 15 de março de 2018

Polícia? Que Polícia? (Por Sidney Pinho Junior)

O que mais estarrece e provoca profunda indignação é que, boa parte da sociedade apoia a violência policial, a truculência e o abuso de autoridade batendo nas portas das pessoas, consideradas por esta minoria facínoras, bandidos desqualificados, quando na verdade são as pessoas de bem que trabalham, que lutam pelo pão de cada dia, sem a devida assistência do estado, omisso e covarde, opressor e mantenedor de uma polícia assassina, cruel e que não tem dignidade por conta de uma nação apodrecida, corrupta e viciada em enganar os cidadãos!

A classe média, refugiada em seus apartamentos financiados pelo sistema econômico que escraviza a todos, pensa ser parte das elites e se sente imune aos desmandos da polícia repressiva e anti-cidadão, mas no fundo sabe que ao sair às ruas das cidades brasileiras, não apenas no Rio de Janeiro, está correndo o risco de não voltar para casa, podendo como qualquer um, pobre, favelado, morador de comunidade ou não, acabar sendo vítima de uma polícia que cada vez se faz mais perigosa que a própria bandidagem!

A república, imposta aos brasileiros no golpe de estado de '15 de novembro de 1889, já nasceu viciada em preconceitos, tendo sido construída sob os alicerces da desigualdade, da impunidade e da sanha de poder das elites que nunca quiseram construir uma nação rica e próspera…

Os oligopólios se multiplicaram e cresceram explorando o cidadão comum, promovendo desigualdades e construindo muros sociais que legaram uma sociedade frágil, limitada e vivida em sofrer sem nunca dizer nada; transformada em gado, em servis conformados, encangalhados, colonizados e escravizados por políticas que não foram feitas para uma nação livre, pas para um país servil, alinhado e subserviente aos impérios capitalistas selvagens!

Hoje, estamos testemunhando o resultado, ainda parcial, mas absolutamente aterrador do que nos foi imposto nestes 129 anos de república, espúria e sem alma… um estado onde ser “cidadão de bem” é cultivar o preconceito indiscriminado, é valer-se das parcas benesses concedidas por um estado impostor, mentiroso e explorador e sentir-se parte dos privilegiados, de uma elite a qual jamais pertenceram, mas que insistem em acreditar!

Mas não se iludam pois o pior ainda está por vir… depois de rasgarem a CLT, extinguir o salário mínimo à partir da lei da terceirização e do trabalho intermitente, criando um novo estado escravocrata, de transformarem o ensino médio em indústrias de operários que jamais terão acesso ao ensino superior, reservado aos filhos dos poucos privilegiados de classe média, estão acelerando todo o processo de elitização definitiva de uma nação que jamais existiu!

Voltando a polícia, se construiu uma instituição de repressão e de formação destrutiva, onde uniformizada de soldadinhos de chumbo foram se investido de autoridades intocáveis e impunes, contra a sociedade e os cidadãos que ao invés de serem reconhecidos como tal, são tratados como suspeitos, criminosos, já que o estado perpetuou o crime como seu principal princípio de atuação, executando e levando aos cidadãos suas culpas e mazelas.

Não gritem contra os PM´s, não gritem contra os policiais civis, os federais, rodoviários federais e os mal preparados guardas civis, mas berrem e esgoelem-se contra o estado brasileiro, contra as autoridades constituídas que jamais pensaram que a educação é verdadeiramente transformadora, construtora e financiadora de uma nação, gritem contra as oligarquias que querem continuar enxergando o mundo de cima de seus privilégios espúrios de suas empáfias elitistas e que jamais pensaram em ter um país de verdade!

Não podemos culpar a omissão e o conformismo da classe média, pois talvez sejam eles as maiores vítimas sociais do modelo republicano capitalista inconsequente, que valoriza o ter e despreza o ser, transformando pessoas de bem em indivíduos egoístas, sem amor ao próximo e fechados ao clamor de uma sociedade pobre e que agoniza em direção ao cada falso…

Haveremos que nos despir de tudo que aprendemos e acreditamos até aqui, despimos-nos de todo preconceito, de todo desamor, mas principalmente despimos-nos da ganância, do incontrolável desejo do ter, a qualquer custo e a qualquer preço, pois somos todos vítimas de nós mesmos, que acreditamos num estado que não existe, numa justiça que trabalha em favor de poucos, na classe política que já nasceu tão podre quanto a república tupiniquim que nos oprime a todos… precisamos de coragem para dizer não e colocarmo-nos em marcha de resistência, marcha pela cidadania, pelo direito, pelos deveres negligenciados que nos aviltam com as mais cruéis formas de humilhação!

Não é mais uma questão de ser de esquerda ou de direita, de ser contra ou a favor de Lula, de Serra ou de Bolsonaro, não, não é mais uma questão de escolha pessoal, mas de sobrevivência coletiva, é questão de segurança nacional, pois já passa da hora de construirmos uma nação para todos n´s indistintamente, pobres ou ricos, brancos, negros e pardos, de esquerda e de direita, sem impormo-nos preconceitos que só nos separaram, gerando mágoas, desentendimentos e morte, muita morte!

O Brasil tem que ser revisto, a república tem que ser condenada por todos os seus crimes, por todas as atrocidades que nos impôs por mais de um século e, não podemos perdoar àqueles que querem cortar nossas cabeças, condenar nossos filhos ao inferno que se aproxima, mutilando nossas vidas e nos condenando ao fim que está nos devastando!

Unimo-nos todos, não por este Brasil, mas pela nação que ergueremos das cinzas podres da República covarde.







Hasta Siempre, Marielle (Por Ernesto Xavier)

"Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades...
" (Cazuza)


A morte de Marielle não é algo fácil de se digerir. Não é apenas mais uma morte.

Em primeiro lugar devemos entender quem ela era.

Morreu uma mãe negra.

Uma mãe negra periférica. Uma mãe negra da favela que virou liderança política em uma cidade sitiada por bandidos fardados, bandidos de colarinho branco e bandidos descamisados. Uns se confundem com os outros. Difícil dizer quem é quem. Quando termina um e começa o outro? No Rio é difícil dizer.

Mas além das questões partidárias, ideológicas e de qualquer outro gênero, devemos lembrar que ali tinha (tem) um ser humano, com família, com amigos, com sonhos, anseios, angústias, questões, erros, acertos. Morreu um ser humano.

Morreu também uma ideologia. Morreu uma ideia de que ainda podemos lutar por algo. Não podemos, amigos. Somos nada. Somos pó de estrelas sendo soprados aleatoriamente no universo.

Dispersos em neuroses. Somos poeira, colegas.

Neste caso, somos corpos negros violados. Desfigurados. Acuados. Coagidos. Indefesos.

Somos carne negra sendo vendida a preço de banana.

Lutar por algo que mexesse na estrutura racista, misógina e desigual desse país sempre fez jorrar sangue. Nossa história é de guerra, não de paz.

Marielle era da Maré.

Marielle lutava pelas milhares de vidas negras e pobres perdidas diariamente.

Marielle era presidente da comissão que fiscalizaria a intervenção na câmara municipal.

Marielle denunciou as mortes de jovens em Acari por policiais no último final de semana.

Marielle incomodava e muito.

Marielle somos nós, companheiros.

Se você não se importa, talvez não tenha entendido que o próximo também pode ser você.

Quem matou Marielle?

Quem poderá afirmar? 

Quem mata os mais de 40 mil corpos de jovens negros todos os anos no Brasil?

O Brasil matou Marielle.

Marielle, PRESENTE.

Descanse em paz. Seja lá onde essa paz possa ser alcançada.


#SentiNaPele


Ernesto Xavier é ator, jornalista e escritor. Autor do livro "Senti na pele".




























terça-feira, 6 de março de 2018

E Lula será preso... (Por Fernando Drummond)

Sigilo bancário de Michel Temer é quebrado pelo Barrosão, aquele que um dia foi um excelente professor de Direito da UERJ. Mas bom ladrão não deixa rastro. Se ele tem alguma coisa na conta dele, é mais imbecil do que aparenta. Mas que tá sangrando, tá. Vai aprovar reforma nem no banheiro de casa.

Taca fogo no Cabaret Brazil!!! Com perdão aos estabelecimentos.

P.S.: O grande problema é que me parece uma imensa cortina de fumaça pra prisão de Lula.

Lula será preso nos próximos dias por causa de um triplex que está no nome da OAS e penhorado em nome dela.

O Senador Perrela, DONO do helicóptero do pó, afilhado de Aécio, e não estou fazendo nenhuma referência ao narcotraficante que quase virou Presidente do Brasil e construiu aeroportos em suas terras, navegam em mares de Almirante, tranquilos, sem serem incomodados pelo pior STF de toda a história.

Carmem Lúcifer, com perdão a Lúcifer, diz que não há provas contra o narcos Aécio. Mesmo com o áudio dele mandando matar o primo antes da delação, pedindo propina, etc etc etc...

Em resumo: se estivéssemos na Argentina, o povo estaria nas ruas. Fingimos ter rivalidade futebolística com eles. Mas o que temos é inveja, por serem um país muito menor que o nosso, com o povo muito maior. Somos um bando de milhões de covardes, corruptos seletivos em um país bonito por natureza.

Vimos o golpe de 2016 e nada fizemos. Vimos uma quadrilha assumir e fizemos cantigas.

Acompanhamos o julgamento de Lula no TRF-4 e tiramos selfies. Agora, não reclamem. É tarde demais. E eu avisei em 2016 e quem me acompanha sabe: vocês estão apostando em Lula 2018? 2018 não irá nem chegar.

Pela primeira vez em minha vida, não sei o sentimento que tenho ao ver a bandeira de meu país: se nojo ou raiva.

Eu avisei em 2016 que 2018 não chegaria. Mas insistiam. Diziam, naquele ano: “não vai ter golpe, vai ter luta”. 

Teve golpe na Câmara e nem um pneuzinho queimado porque, diziam as centrais, “não poderíamos nos igualar a eles”. No Senado, evidentemente, o mesmo desfecho. 

Por pedaladas fiscais, usurparam do poder uma mulher, a primeira mulher Presidenta de nosso país. 

Antes disso, destruíram seu governo com aquele adesivo: “a culpa não é minha, eu votei no Aécio”. 

Neste momento, morreu a democracia

Parece que os eleitores do traficante sumiram ou tiraram o adesivo. Começaram, então, a dizer que quem colocou o Temer lá foram os eleitores de Dilma. 

Negativo. Quem colocou o Temer foi quem tirou Dilma, os paneleiros, os amarelo-patos, os corruptos deputados comprados e senadores. 

Daí teve uma luz no fim do túnel. 2018 se aproximava e Lula seria o candidato. E teve gente que acreditou que, depois que tiveram tanto trabalho com o golpe, iriam devolver o país ao PT? Não, né. 

Lula foi julgado baseado num PowerPoint tosco do ridículo procurador Dallagnon, que recebe muito mais do que o teto constitucional, assim como seu chefe, o Juiz Sérgio Moro, sobrinho e filho dos fundadores do PSDB de Maringá/PR

Lula, então, passou a ser dono de um imóvel que não está no nome dele e penhorado em nome da real dona, a OAS. É, então, que temos a segunda vítima fatal: o Estado Democrático de Direito.
Por tudo isso, digo sem medo de errar, o que falei em 2016: o povo brasileiro não fará nada.

Fugimos à luta e somos covardes. Porque, se tivéssemos o mínimo de vergonha na cara, pegariam pedrinhas e tacariam na cadeia aonde ficará Lula. Crime de Dano. Eu seria um deles. Revezaríamos e não teria cadeia suficiente para quase 60% da população. 

Sinto vergonha de ser brasileiro e pior. 

Sinto nojo de ter cursado Direito em um país em que péssimos magistrados brancos condenam o melhor Presidente que esta Republiquetinha já teve, cujo pecado é não ser o sociólogo FHC, que tem um apartamento gigante na Avenida principal de Paris, Focq. 

O seu grande pecado foi ser um mero metalúrgico.



Fernando Drummond é escritor, cronista e roteirista. Autor do Best Seller "Trilogia do Mal" e junto com os parceiros Nathan Minto e Thiago Muniz lançarão em maio o livro "O Desempregado do Amor", pré-venda no link: https://pag.ae/bjvYMgj

Confirme sua participação no evento em: https://www.facebook.com/events/187719685150697/

























terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Mas, Ernesto... (Por Ernesto Xavier)

O carro atravessa a estrada à noite. Uma picape. Carro caro. O motorista sou eu, no caso. Uma blitz à frente e o trânsito fica um pouco mais lento. Nada de mais. Todos os carros vão passando em fila tranquilamente. Os policiais quase nem olham para os veículos, riem entre si, conversam. Um deles mexe no whatsapp. Faço os procedimentos padrões: diminuo a intensidade do farol, mantenho as mãos no volante, abaixo os vidros. 

E então o que acontece?

O cara arma o fuzil e aponta na minha direção.
Tcharaaaaaam!
Eu então calmamente ligo a luz interna e ele então percebe que há outra pessoa dentro do carro: uma mulher branca.
Ele abaixa o fuzil e me manda seguir.
Tcharaaaaaaam!!
Minha carta de alforria estava sentada no banco ao lado. Que maravilha é viver no Rio de Janeiro do século XIX. O fato ocorreu há alguns meses atrás. Clima tenso no Rio. Quando não foi, não é mesmo?
Aí alguns leitores vêm aqui me dizer: “Mas, Ernesto, eles estão apenas fazendo o trabalho deles”.
Sim, estão. Me apontando o fuzil. Fico até mais tranquilo quando ele engatilha. Dá aquela sensação gostosa de set de filmagem do Rambo. Só que eu, por acaso, sou o inimigo do Rambo.
Mas, Ernesto, a maioria desses policiais também são negros e pobres”.
Sim, querida, são. Ou você acha que as consequências do racismo atingem e são reproduzidas apenas pelos brancos?
Eu tenho uma sugestão: Deveriam criar uma nova matéria escolar para os ensinos Fundamental e Médio: “Racismo Estrutural Brasileiro: imagem e sociedade”.
Nesta disciplina, que seria obrigatória, valendo nota e só valeria tirar 10, o aluno aprenderia sobre como se formou o pensamento do cidadão brasileiro, como chegamos até aqui, etc.
Deixa de ser irônico, Ernesto”.
Estou falando sério. Nela, aprimoraríamos o olhar dos jovens, negros ou brancos. Mostraríamos novelas, comerciais de TV, editoriais de moda, noticiários. Seria interdisciplinar. O aluno deveria contar quantos negros encontra em uma novela que se passa no Brasil, quantos aparecem em comerciais de margarina, quantos aparecem nos noticiários policiais e fariam uma equação para chegar ao coeficiente de negritude da mídia brasileira.
O aluno entenderia porque “naturalmente” ele associa o crime a uma pessoa negra. Ele entenderia porque ele não se vê como negro, porque ele acha normal que quase todas as empregadas domésticas e babás sejam negras. E também que não é legal dizer que “ela é quase da família”, nem chama-la de “mãe-preta” ou coisas do tipo.
A matéria teria questões no ENEM. Envolveria História, Geografia, Sociologia, Matemática. Olhem o “valor agregado” que isso traria para o “cidadão de bem”. A classe média adora valor agregado e cidadão de bem.
Mas, Ernesto, porque você foca tanto nos policiais? Você quer acabar com a imagem dos militares?

Não, querido. Eu só não quero morrer. E, no caso, quem porta arma no Estado e pode fazer isso é um policial. Um médico não me ameaçaria com um bisturi e nem um professor com um giz.
Mas...
Dentro da sala de aula esse futuro policial poderia aprender um pouco sobre quem ele é, quem são seus irmãos sem farda, quem realmente pode ser uma ameaça e de que forma o pensamento social brasileiro age sobre ele, levando-o a pensar que somente pelo outro ser negro, então é uma ameaça.
Não, ele não pensa isso. Não é consciente não maioria das vezes. A sociedade é assim. A sociedade é racista. Infelizmente tenho que te avisar isso, caro leitor:
Você provavelmente é racista.
Não se assuste. Não vá para o banheiro chorar. Aguente firme. Vou repetir. Você provavelmente, se não for negro, é racista.
Respirou?
Um novo mundo se abre quando entendem isso. A sociedade brasileira está fundada em princípios de exclusão racial. Não dá pra explicar isso em apenas um texto no Facebook. Leva tempo. Apenas confie no que estou te dizendo. Algumas coisas irão acontecer comigo e nunca irão acontecer com você, branco, simplesmente porque minha pele carrega alguns símbolos, que historicamente me tornam alvo.
Sim, eu como negro, sou mais alvo do que agente (aquele que age, ok?) da violência. Cerca de 23100 jovens negros entre 15 e 29 anos são mortos todos os anos no Brasil. Um negro morto a cada 23 minutos. Morto por mãos brancas e negras, sim. Morto por estar envolvido com algo errado ou não. Morto porque a vida o colocou desde o nascimento em posição vulnerável. Ele pode ser um policial. Nossa polícia é, também, a que mais morre. Já chorei e sofri por 2 policiais negros mortos na minha família. Pessoas que eu amava demais. Não quero isso novamente.
Criaram uma guerra entre pretos. Bandidos negros. Policiais de baixa patente igualmente negros.
Não é só a polícia que deve entender isso. É você que escreve “mas” a tudo que diz respeito ao nosso direito à vida. 

O seu “mimimi” ajuda indiretamente a matar mais alguém. 

Provavelmente um jovem negro morreu enquanto você lia esse texto. Você leu mesmo? 

Ou apenas vai escrever o nome do seu candidato à presidente nos comentários? 

O nome dele é o seu argumento?

#SentiNaPele

Ernesto Xavier é ator, jornalista e escritor. Autor do livro "Senti na pele".








terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

O Fim da Ala dos Compositores (Por Vinicius Natal)

"As alas acabaram e a discussão é longa. Outra questão relevante é a perda das escolas de samba como espaços de composição dos chamados "sambas de terreiro". Se a produção de sambas-enredo diminuiu muito, a de sambas de terreiro está praticamente extinta. Poucas escolas ainda fazem concursos de sambas de quadra, com quase nenhuma repercussão fora da bolha. Algumas perguntas: as direções das escolas de samba estão dispostas a dialogar para pensar em democratizar as disputas? Interessa a alguém que as disputas sejam democratizadas? Existem maneiras de se impor controle de gastos nos concursos? É justo que sambas com redes de financiamento, lícitas ou ilícitas, formem palcos milionários, em detrimento dos demais concorrentes? Quem ganha dinheiro com as disputas? Como formar novos compositores? Está sendo feito sobre isso nas escolas mirins? Sambas encomendados matam alas de compositores ou só existem porque as alas de compositores morreram? Eu teria mais umas vinte proposições a fazer..." (Luiz Antõnio Simas)

Assistindo o bar apoteose do amigo Alex Cardoso, fiquei pensando.

Lembro muito bem que, quando eu era pequeno, frequentava diversas festas da ala dos compositores da Vila Isabel. Havia datas esperadas como a festa de natal, a entrega dos sambas que era bebemorada e compartilhada, os pagodes depois dos ensaios, as viagens à casa de praia de Irany Olho Verde, os passeios, os jogos de futebol entre casados x solteiros, os concursos de samba de meio de ano, o pagamento de mensalidade, a eleição acirrada da disputa entre as chapas para ver quem seria o presidente da ala - cargo respeitadíssimo - e, por fim, disputas de samba em que o samba, por si, contava - não é folclore, é real!

Hoje, o compasso não é mais esse...

As alas de compositores, enquanto núcleos de sociabilidade, acabaram. Vamos aceitar isso. Samba de enredo virou um quesito assim como casal de mestre-sala e porta-bandeira, comissão de frente, carnavalesco e a plástica, etc. Cada vez é mais comum a encomenda de samba em busca de um campeonato e de 40 pontos. Prática que, sejamos francos, tem nos rendido sambas incríveis.

Que se assuma isso como um dado concreto e se crie uma nova forma de resgatar a sociabilidade e divertimento de uma ala dos compositores, enquanto grupo coeso, ou vamos dar murro em ponta de faca. E aí todo mundo sangra, exceto os mesmos compositores mega talentosos - os quais conhecemos bem e,merecidamente, são os mais aplaudidos.

Vamos pensar aqui:

- As disputas de samba se modificaram sensivelmente com a entrada da indústria fonográfica nas escolas de samba. Pensar, então, de que forma o papel das produtoras e distribuidoras impacta nas relações de dentro de compositores da escola é uma tarefa urgente - sambas que rendem mais de 400 mil reais em um ano, quem ganha o lucro, a escola de samba que "sequestra" mais de metade do dinheiro do compositor e, até mesmo, as escolas que nada pagam. Afinal, o compositor não é um artista, assim como o carnavalesco?

- O número de sambas, na maioria das escolas, em uma disputa, é ínfimo. Tem escolas que tem 5 sambas pra disputar e a escola precisa ficar enrolando para não acabar cedo. É justo e correto enrolar uma disputa nesse nível?

- As torcidas, que antes eram pessoas da comunidade que torciam para seu samba sair vencedor, hoje são ônibus alugados de variados locais do Brasil para torcer, sem a mínima ligação com as agremiações. É pertinente isso para a escola de samba que queremos?

- Uma parceria de grupo especial gasta, aproximadamente, 100 mil para ganhar uma disputa. Logo, 100 mil reais é um dinheiro que se pode/deve investir em disputa de samba?

- As quadras ficam vazias em disputa de samba, na maioria das escolas, e há uma lenda que disputa dá lucro para escola. Será mesmo? O custo para abrir uma quadra em disputa é tão grande...

- Muitas escolas encomendam samba mas, para passar um ar de sobriedade, fingem ter uma disputa com o samba escolhido desde o início. Isso é honesto com o sambista?

Longe de ter certezas aqui, mas esse modelo de concurso está falido, assumamos isso... Mais importante que a disputa de samba, é se voltar para os milhares de compositores que amam suas agremiações e, hoje, não escrevem mais. Talentosos artistas da cultura popular que foram se afastando e, como o tempo é cruel, estão nos deixando, ressentidos, sem poesia.

Já joguei o jogo na minha escola e, cruelmente gastamos mais de 70 mil reais, sem patrocínio. 

Encarar os problemas é uma necessidade para a mudança e, creio eu, que os deuses do carnaval nos deram a oportunidade de sermos melhores. Não só por nós, mas por todos os poetas de samba do Brasil.

Que o "Não deixe o samba morrer" deixe de ser só uma canção, mas se torne uma prática cotidiana.

E que comece agora...

Foto: Acervo Alexandre Medeiros

Vinicius Natal é compositor, diretor cultural da Unidos de Vila Isabel, professor de História e mestrando em Antropologia pela UFRJ.










segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Intervenção (Por Ernesto Xavier)

"Nós sofremos uma intervenção parecida em 2014. Tivemos um soldado para cada 55 moradores. Eu nunca tive um médico ou professor para cada 55 moradores". Gisele Martins, moradora da Favela da Maré, à Rádio Brasil de Fato.

O Rio de Janeiro possui cerca de 850 regiões dominadas pelo tráfico de drogas. 850. Elas não nasceram por geração espontânea ou milagre. Sacou o tamanho do problema? Imaginou uma intervenção nesse cenário?

E se eu te disser que o problema mais grave não está dentro dessas 850 regiões ou comunidades ou territórios ou favelas, seja lá o nome que você quiser dar?

O Rio vem firmando parcerias com as forças armadas há décadas. Grandes eventos como a ECO-92 tiveram os militares juntos. Copa do Mundo. Papa. Olimpíadas. Aquela sensação gostosa de paz, mesmo que os números absolutos dissessem o contrário. Mas se na TV diz que tá tudo em paz, então tá tudo em paz.

Durante o período de instalação das UPPs, eram as forças armadas que faziam a primeira ocupação, lembram? E aquele tanque enferrujado da Marinha entrando na favela? Lembram também? Eu fico imaginando aquele blindado lançando um tiro no meio da comunidade. Espetáculo.

A classe média ia urrar em gozo! Classe média gosta de ver sangue, contanto que não seja o seu. Se você pensar que a classe média reclamava de Merthiolate porque ardia e preferia mercúrio cromo, forçando o Merthiolate a não arder mais, então imagina se essa classe média tomasse um tiro de “bala perdida” dentro de seus apartamentos em Copacabana?

Desde junho do ano passado tivemos movimentações importantes do exército no Rio, na Rocinha, na Maré e na Cidade de Deus. Deu em que? Nada. O bagulho ficou mais doido. A porrada estancou. Os trafica faziam o que queriam. Tá todo mundo aí ainda. Dinheiro gasto a rodo. Anexos no orçamento. 

Aquele dinheirinho que escoa pro caixa 2 da campanha. Uma M-A-R-A-V-I-L-H-A.

Não se acaba com o tráfico e consequentemente o crime organizado matando traficante na favela por dois motivos simples: eles são substituídos por outro rapidamente, pois aquilo não é o Ministério do Trabalho e a pobreza e o acesso aos bens de consumo seguem escassos e em segundo lugar porque quem mantém aquela máquina funcionando não é atingido, mesmo que uns dêem mole e deixem um helicóptero com 400 kg de pasta base de cocaína ser apreendido na própria fazenda.

Esses são os dois principais motivos, mas outros se juntam nessa sopa de entulho que a gente é obrigado a tomar.

Uma delas está na “inteligência” do exército. Essa mesma que dizem que irão usar agora no Rio. A grande maioria dos militares está concentrada na região Sudeste. Um contingente espetacularmente grande não faz absolutamente nada. Limpam quartel e fazem vigília. Não estão na fronteira pra reforçar a fiscalização do que entra e sai do país.

Não estão defendendo fronteira, saca? Soberania nacional, defesa territorial e outras paradas que Bolsominions adoram falar. Não é pra isso que serve? Rio de Janeiro e São Paulo não fazem fronteira com ninguém. Coleguinha, AK-47 e AR-15 não brotam em árvore. Vem do exterior por via terrestre ou pelo porto. Traficante de favela carioca não fala inglês, espanhol ou russo pra negociar arma e droga na fronteira. Então tem alguém graúdo que faz isso por ele. Não sou eu. Não é você (acho) e não é o PM que tá aqui no Rio trabalhando de viatura velha e sem colete.

Outro ponto: traficante não sabe fazer manutenção em arma. Uma metralhadora dessas dura uns 3 meses na mão deles. Aí quebra e tem que comprar outra. Rotatividade sinistra! Chega muita parada. Deve vir pelo Ifood ou Uber Eats. Só pode. Entra no aplicativo, escolhe a metralhadora e ela chega com o motoboy junto com a nota fiscal e o troco.

Essa intervenção já começou faz tempo. Lá pelo século XVI quando tiraram meus antepassados da África e jogaram aqui.

Mas tudo você coloca o racismo no meio, né Ernesto?

Sinto dizer, porém não fui eu que no dia 13 maio abri as portas das senzalas, jogando negros na rua, sem trabalho, sem casa, sem instrução, sem dinheiro, com fome, marginalizados. É, não fui eu. Juro.

Depois também não fui eu que fiz remoções. Nem promovi o encarceramento em massa de negros.

Ah, também não fui eu que matei negros após a abolição, mesmo que eles nada tivessem feito. Não posso esquecer de dizer que também não fui eu que contei uma falsa história da África e do negro nos livros de história, nos filmes, novelas, livros...feitos por brancos, claro.

As favelas cresceram com esses negros, nordestinos, marginalizados em geral. O poder do Estado só ia lá com a polícia ou com candidato pra pedir voto. Fuzil ou santinho. E era isso. É isso. Essa é a intervenção que o pobre e preto conhece.

Eu poderia perguntar a alguns colegas da Zona Sul onde eles compram suas droguinhas (sem fazer julgamento do uso). Eu receberia alguns endereços nobres da cidade. Tem no Leblon, Ipanema, Copacabana. Será que o Fraga Netto vai se interessar? Mando a planilha pra ele. Vai rolar uma apreensão em massa de “jovens de classe média” ou vão continuar prendendo e matando só o “traficante fulano”?

Em breve a classe média vai se sentir em paz, andar com seu Iphone 8 de boa no Arpoador, comer seu açaí com guaraná e proteinato na casa de sucos e jogar futevôlei numa manhã de terça-feira na Barra. Aquela sensação de segurança. Soldados em fardas camufladas nas ruas. O Rio Maravilha! O Rio exportação! O Rio fitness!

O pretinho da favela vai correr de bala perdida, vai abrir a mochila toda vez que entrar ou sair do bairro, vai ter toque de recolher, vai ter enterro de familiar, de amigo, de conhecido. Mas o carioca-zona-sul-classe-média-nariz-em-pé estará vendo maratona de “La Casa de Papel” comendo snacks de mandioca comprada no Hortifruti, bebendo suco verde.

A intervenção vai sair uma hora. Os problemas continuarão aqui. As armas seguirão passando pela fronteira. A cocaína também. A pobreza na favela vai piorar. Muitas famílias vão chorar. Não tem mal necessário nesse caso. Vai morrer inocente. E não me venha com o discurso de que é inevitável, porque se fosse a sua família em risco, você não aceitaria nenhuma margem de risco. Essa margem só serve pra quem você não se importa.

Alguém aí tá se importando com o filho da dona Tereza, que sonhava jogar futebol e ainda estava no 7° ano, apesar da falta de professor na escola? Ou o bicho só pega quando o aluno do Santo Agostinho perde o celular na porta do colégio?

Quer intervir no Rio? Cria máquina do tempo e dá dignidade pro povo preto.

O resto é enxugar gelo.


Ernesto Xavier é ator, jornalista e escritor. Autor do livro "Senti na pele".













































sábado, 17 de fevereiro de 2018

Vai começar a carnificina no RJ (Por Thiago Muniz)

"Muda a cor da farda do atirador, só não muda a cor da pele de quem morre." (Ernesto Xavier)

Quando o vulgo golpista vampiro, mas então presidente Michel Temer decretou a intervenção federal na segurança pública no Estado do Rio de Janeiro; foi uma forma de conquistar o seu próprio partido, o MDB/PMDB, que está rachado devido a Reforma da Previdência. O governador em exercício, senhor Luiz Fernando Pezão, é um desses membros do partido que estava nessa sinuca de bico. Então qual foi a moeda de troca? Entregar a segurança de um estado como o Rio de Janeiro em favor de algumas moedas de prata, assim como Judas fez com Jesus.

Como diria Raul Seixas: "A solução é alugar o país...". Pezão alugou a segurança pública para o governo federal, onde nomeou um general quatro estrelas para ser o interventor do estado. Mas o senhor Temer deixou bem claro que a intervenção só será colocada em prática depois da votação da Reforma da Previdência; ou seja, uma mão lava a outra.

Mal o general assumiu o posto de interventor já declarou que "O clima não é tão ruim assim...".

Como assim general? Não conheces a realidade do Rio de Janeiro? Faça uma ronda pessoalmente por toda a cidade do RJ, baixada e adjacências e verás que o buraco é muito mais embaixo do que pensas ou mandaram dizeres publicamente. Dê uma volta com trajes civis de preferência na Linha Vermelha e Linha Amarela. Verás que a hostilidade está bem aguda.

Intervenção Federal? Na prática será só nas zonas Norte, Oeste, Baixada e talvez a região Metropolitana. Porque o playboy filhote de empresário ou de magistrado continuará acendendo o seu baseado no Arpoador ou puxando uma carreirinha de cocaína em alguma festa no Leblon.

A intervenção só apareceu depois do caos na Rocinha, ou seja, zona Sul carioca, maior comunidade da América Latina, PIB maior que muitas cidades do país, reduto do consumo e demanda das drogas. Na Pavuna por exemplo está tão pior quanto, as empresas estão fugindo do RJ por terem que obrigatoriamente passarem por aquela região (Pavuna, Acari, Costa Barros, Jardim América...) e literalmente os caminhões são saqueados todos os dias. Isso já perdura há mais de 2 anos. E só agora vem uma intervenção federal?

Nossas praças não serão salão de festas do crime organizado. Já sabem o que significa, né? E não, não era do bloco de carnaval em Ipanema que o Temer falava. A narrativa vinha sendo construída desde o início da semana, e não pela primeira vez (arrastões em 1992, fechamento de escolas e comércio em 2002...).

Um fuzil na clandestinidade pode estar valendo até uns 50 mil reais, a vista e em dinheiro vivo. A quem interessa mesmo a não apreensão e incineração desta arma? Enquanto não houver uma reforma na segurança pública, os agentes policiais continuarão mantendo as suas vidas paralelas com alta rentabilidade e influências. Seja através de milícias, contravenções e política; manter o comércio armamentista ilegal ativo é o objetivo fundamental para a máquina paralela.

Os militares vão moralizar o Rio de Janeiro? Não, peraí! Leiam as matérias abaixo:

Matéria de 18 de janeiro de 2018.
* Matéria de 11 de dezembro de 2017.
* Matéria de 13 de outubro de 2017.
* Matéria de 05 de dezembro de 2017.

Em primeiro lugar a opinião pública no Brasil é pautada pela mídia, especialmente a TV. Estou errado? Se a mídia oligárquica quiser ela faz a imagem de uma instituição ou a derruba. Portanto, não podemos pautar a credibilidade pela opinião pública, já que ela não é tão espontânea assim. Aliás, pergunte para moradores de comunidades pobres o que elas acham das forças militares. Creio que terá muitas histórias tristes para ouvir. Tem gente boa? Tem. Mas a estrutura é corrompida, preconceituosa, desumanizada.

Devemos ter alguma ação na segurança? Sim. Urgentemente. Mas ela deve partir das forças estaduais. O exército não é treinado para o combate e patrulhamento de rotina nas cidades. Além disso, a intervenção no Rio é meramente política. Estados com o o RN e CE necessitam muito mais de ações de segurança do que o Rio, mas o estado do RJ é vitrine política.

O trabalho de longo prazo sempre é colocado em último lugar e seguimos enxugando gelo. À criminalidade não vai acabar porque a desigualdade social não vai acabar. Assim é que se combate a violência . Outro ponto: existe um poder simbólico do Estado que é exercido sobre o cidadão. A sensação de ausência da presença do Estado leva ao caos, à desobediência civil. Não sou eu que estou afirmando isso. São os maiores sociólogos do mundo, Bourdieu como o principal. Se o Estado não se faz presente, o sujeito age como bem entende e tende à desordem. Assim é com todas as instituições .

O povo não vê hospital funcionando, nem viatura, nem esgoto, nem luz, nada. Ele vai se revoltar. Ele vai desobedecer. Agora o Estado quer entrar com armas? Qual é a leitura que o povo vai ter? A de que eles são horríveis, desprezíveis. Então, a segurança é pra quem? Pro povo como um todo ou pro morador da zona sul? Acho que fica óbvio para quem se destina.

Temos 79,9% dos 60 mil homicídios no Brasil de pessoas negras. Isso é algo que surge porque os negros são naturalmente violentos? Ou porque fomos jogados à miséria desde 1565? É estrutural. E as polícias e forças armadas foram criadas no Brasil a partir da visão de que negro e pobres são ameaças e que devem defender a elite, a propriedade. Vide o brasão da PM no Rio de Janeiro.

E para terminar, vou citar na íntegra o que a professora Jaqueline Muniz, especialista em segurança pública da Universidade Federal Fluminense, fez na edição das 10 da Globo News hoje (17/02) ao vivo:

"Olha! A expectativa eu diria que não é otimista. É pior do que seis ou meia dúzia, ficou claro na fala do ministro né? A pergunta que a gente tem que fazer é a seguinte: Ninguém foi pego de surpresa com essa ação de intervenção colocada no decreto. Primeiro que o Rio de Janeiro desde 1992 com a ECO-92 vem experimentando formas diretas e indiretas de intervenção das Forças Armadas na segurança pública do Rio, ok? Então isto não é uma novidade. Segundo ponto que é importante chamar é usando a imagem do Carnaval é que a operação do GLO na Rocinha, no Salgueiro (São Gonçalo e não Tijuca) e antes disso na Maré serviram como uma espécie de ensaio técnico em que ninguém mostrou quais foram os quesitos e as notas que tiraram né? Até agora, apesar de terem gasto quase 300 milhões na Maré por mais 1 ano, aqueceu a panela de pressão sem produzir resultados substanciais, ninguém apresentou relatórios de eficácia, eficiência e efetividade no emprego das Forças Armadas em suporte a ação policial no Rio de Janeiro, o que nós vemos e temos assistido no Rio na verdade pra ser muito clara é substituição do arroz com feijão da segurança pública, que é o que funciona, correto? Não é invenção da roda, o dia a dia dos policiamentos por operações policiais sobe e desce morro, pela teatralidade operacional, que tem rendimento político e eleitoral, rendimento midiático, mas pouco efeito no cotidiano. Se é de fato pra combater o crime organizado não será esse efeito "espanta barata" que tem se produzido com sobe e desce morro chamado síndrome do Cabrito, agora articulada, envolvendo as Forças Armadas, que aliás tem plena consciência de sua incapacidade de agir como polícia, de tal maneira que demandaram o salvo conduto uma proteção através de um decreto que transfere os seus erros nas suas violações para a Justiça Militar. O jogo entre Estado e Governo Federal não tem como mudar, isso é um ilusionismo e é preciso ser claro com a população. Tem alguém enganando alguém, o governador passou a perna nas polícias ou as polícias fizeram um by pass no governador; por uma questão muito simples que a população precisa saber; há 15 dias atrás a Polícia Militar fazia um planejamento e um seminário, com apoio do Viva Rio, dentro da FIRJAN de planejamento estratégico dessa polícia do Futuro, a polícia de 2018. Estavam presentes o secretário de segurança, o ministro da defesa, todos estavam lá. E desenharam um plano, uma proposta; ouvindo setores da sociedade e entregar ao governador. Quinze dias depois todo mundo é pego de surpresa? A intervenção federal no Rio de Janeiro não é um efeito especial de escola de samba que ninguém sabe, fica sabendo no Sambódromo da insegurança pública do Rio, ok? Então, quem passou a perna em quem? De um lado o governador que entregou o Rio de Janeiro de porteira fechada, e quem abre mão da segurança abre mão da governabilidade, da capacidade de governo. Não é falando alto, gritando forte, que vai fazer as polícias funcionarem. Se tinha ingovernabilidade na segurança, não é o Exército falando alto, de bigode que vai conseguir produzir, porque afinal nem as Forças, as espadas no Brasil, das Forças Armadas a Polícia Federal ou a guarda da esquina não tem dispositivos de controle interno e externo de governabilidade, fazê-las funcionar é um gesto de boa vontade e camaradagem entre pares, é um pedido de Por favor, trabalhe ali na esquina. Esse é o primeiro ponto. Segundo e importante ponto, que a população do Rio tem que saber, o Ministério Público tem um ajustamento de conduta que esta há 2 anos do governo do Estado do RJ um plano de segurança, um conjunto de ações estruturais e sistêmicas pra reduzir a matança de policiais, a matança de civis, mudanças na estrutura da segurança pública do Rio de Janeiro, os prazos estão vencendo e o governador e mais ninguém apresentou. Por sua vez a Defensoria Pública do Rio de Janeiro tem uma ação civil de redução de perdas e danos exatamente para evitar também a matança com propostas substantivas de mudança continuada, pra que a gente não caia nessa fórmula fácil de achar que a espada sozinha resolve e vai cortar para todos os lados, inclusive a cabeça dos governantes e daqueles que hoje sentam na cadeira. Tem uma situação crítica, quem está enganando e porque? O plano de segurança era mais do mesmo, então volto a dizer o que tinha dito antes; vocês não acham estranho que exatamente o Ministério Público há mais de 1 ano desenhou o termo de ajustamento de conduta que envolve um conjunto de ações estruturais de mudança dentro das polícias pra fora, a mesma coisa a Defensoria Pública; o governo do Estado tinha que entregar a partir das audiências públicas, está devendo, aliás já passou do prazo, que tenha sido feito uma reunião com ONG´s, PM, empresariado, pra desenhar esse plano de ações, que aliás é simplório, é medíocre, é mais do mesmo, e que de repente todo mundo é pego de surpresa? Dá a impressão de que o comando militar chegou no Rio de Janeiro pra passar o Carnaval, gostou da cidade e resolveu governar. Não é assim! Tem uma articulação política por trás sim! Se é mesmo pra combater o chamado Crime Organizado como metástase, não existe Crime Organizado que não tenha chancela convivência e conivência com os setores do Estado e setores do Governo. Afinal, é através do dinheiro do crime que se faz caixa 2 de campanha, e que crime é esse? É através de mercadorias ilegais, que vai da banda larga ao tráfico de drogas, mas voltando ao ponto do Rio de Janeiro; porque a Polícia Civil foi intencionalmente sucateada no seu trabalho de inteligência, no seu sistema de dados, nas suas equipes de investigação e na atividade de perícia, porque pelo que eu saiba e pelo que o mundo saiba de pesquisa do que funciona e do que não funciona é a atividade discreta e não barulhenta espetacular, de investigação e inteligência consegue desbaratar economias criminosas e não o efeito espanta baratas da ostensividade, aqui se faz polícia de espetáculo, polícia ostentatória, cara, polícia ostentação. Por outro, transformaram a Polícia Militar numa mercadoria, venderam o policial, precarizaram o policial militar para a iniciativa privada: Lapa Presente, Lagoa Presente, Méier Presente, que até então todo mundo acha lindo. Porque acham lindo? Porque ninguém presta contas, é igual ao decreto do Temer, pode tudo mas eu não dou satisfação a ninguém. Mas e aí vai atuar como polícia? Não! Eu tenho medinho, eu só quero mandar: o sucesso é MEU, o fracasso é DE QUEM TÁ LÁ NA PONTA, o PM da esquina, o policial. Só pra fechar, é mesmo pra combater o crime organizado? Eu queria citar alguns pesquisadores, por exemplo a Camila Dias, que vem insistindo como muitos outros pesquisadores, da unidade de comando do PCC, que tem um governo criminoso, unidades de comando em todo o país se chama PCC. Alguma coisa está sendo feita em São Paulo? Já que é um governo criminoso, unidades de comando. Porque no Rio de Janeiro são franquias ocupacionais, mais fáceis de combater, uma vez que elas não tem disputa de poder e territórios, será que é isso? Ou não? Ou será que é um outro tipo de arranjo político que salva o governador de alguma coisa que a gente não sabe o que é, e ele entrega os seus votos e entrega o governo para as pessoas brincarem de governo militar. Sobre transparência, primeiro eles dizem que há integração, o que a gente sabe que não há. A primeira coisa é que não temos mecanismos de governabilidade das polícias no Brasil, não apenas no Rio de Janeiro. A segunda, os dados aqui são tratados como questões pessoais, intransferíveis e ambulantes, ou seja, não se produz inteligência, e sim disse me disse, fofoca de um e de outro, e mais grave que isso, tem agora a intervenção do limão e limonada, tem um governo militar? Porque o governo militar de retórica de ocupação através da paz foi a UPP que foi sabotado por dentro. Agora sobra a lógica da teatrilidade do confronto. Fechando; então se tem uma intervenção porque o Rio de Janeiro está ingovernável, se é essa a retórica, se quer fazer acreditar, é fundamental que se tenha uma auditoria imediata na Polícia Militar, pra saber em que estado ela está foi precarizada e em que estado o interventor vai entregar, o mesmo na Polícia Civil, o mesmo no Corpo de Bombeiros, o mesmo no sistema prisional. Mas é necessário observação externa e internacional, isso não é brincadeira, aqui ninguém presta contas, cadê os relatórios da operação do Salgueiro (São Gonçalo), na Rocinha; cadê a prestação de contas? O sucesso aqui tem a ver com a manipulação de dados. Como é que você diz que está seguro? Quando você esconde a informação e produz auto-censura, isto não é produzir segurança pública. Agora o que eu quero fechar é que muita gente vai ganhar com isso; o crime organizado agradece, o PCC agradece, os falsos professas da segurança pública agradecem e os mercadores agradecem. Estamos diante de uma temporada de abertura de chantagens corporativas e das negociatas da segurança. Que Deus nos proteja que ele ainda está no Rio de Janeiro."

Sem mais...

















BIO


Thiago Muniz é colunista do blog "O Contemporâneo", dos sites Panorama TricolorEliane de Lacerda Mundial News FM. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.



quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Como será o amanhã? (Por Thais Velloso)

Oceano inteiro continuará sendo pranto de saudade amanhã, em referência à Calunga onde dolorosamente se percorre a travessia, para quebrar a corrente e alumiar o ritual. Quem estiver assistindo e admirando, constituindo o caudal de gente que se reiventa ali, estará sendo protegido pela união do céu e do mar. E teremos então um banquete para o rei, enfeitado do verde tijucano que nos trará a esperança desativada pelas negativas revestidas de óleo curador. Aralokô, pajuê. Em seguida aprenderemos que no princípio nem sempre era o verbo, no ritual sossegado das mães de santo na avenida. Axé! De repente o rádio será ligado por mãos femininas que revelarão um repertório de amor, poesia de outrora. E bailaremos. Já será madrugada, ao som da sinfonia de Villa-Lobos, brasileiro. Canoeiro, canoeiro... Há ainda que se botar banca na Avenida, vindo de São Carlos. Assim lutaremos pela liberdade diante das aquarelas de Debret.

Navegaremos em águas claras até a Zona Sul, gritando por liberdade com orgulho dos ancestrais. Um menino na Santa Cruz ensinou o que é amar, nos explicando que a força pra viver está em um coração de criança, como o nosso pode também ser. Aprendendo a lição, não seremos mais um entregue a razão, e então teremos na mente o dom da criação. No pé da serra transformada em Avenida, um batuque pra Xangô. O rei bordará um mundo de delírios, sonhos, devaneios, tingindo de verde nossa história. Ouvindo o som do atabaque, entenderemos o clamor por piedade. Moju, Magé, Mojubá! Nos encontraremos no abraço da fera encantada, numa passarela tomada pelo canto da Iara, todos sendo levados pela correnteza que conduz até o Eldorado, uma Padre Miguel com cidadãos pintados de ouro.

Até que a sandália da passista no chão anunciará um novo ano. E as vozes se unirão em coro mostrando que o povo está mesmo matando a saudade. Na mais bela arte, as arquibancadas formarão a mais perfeita arquitetura numa paleta em que o preto se mistura com o amarelo. E do futuro virá o branco e o azul inundando nossos olhos de amor. "É o povo do samba!", gritaremos. Vanguarda popular composta por quem vem dos Macacos e do Boulevard. Meu Deus, se eu chorar não leve a mal. De São Cristóvão virá gente nos lembrar que não somos escravos de nenhum senhor. Libertados, estaremos também no trono, e depois do cassino, onde se ganha e se perde dinheiro, brincaremos de qualquer maneira. Pecado é não brincar o Carnaval. E Namastê pra todo povo da Avenida.

Desobedecendo pra pacificar, a luz vai acender; o céu, clarear. Coração aberto, quem quiser pode chegar. Voará a águia sobre nós, com poesia de cordel presa no bico, sob vinte e duas estrelas no céu. Provaremos o sabor do Carnaval, provocando uma vontade louca de que chegue logo o próximo. Calor que afaga, poder que assola. Mães e mulheres se aproximarão, apontando a estrela que tem que brilhar. Firmarão o tambor pra rainha do terreiro e veremos juntos a ginga que faz esse povo sambar. E é sambando que nos daremos conta da coroa girando, de pipas pelos ares, tiê, tucano e arara voando, tambores ressoando para ver brilhar meninos abandonados. Carentes, não teremos medo de amar. A nossa festa é pra quem sabe cuidar e pra quem não nega o amor. Sendo assim, voltaremos de lá alimentados de axé, já que o samba faz essa dor dentro do peito ir embora.






























Thaís Velloso é Professora e Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ.




sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Que tiro no pé hein...Estácio de Sá (Por Thiago Muniz)

Antes de começar essa coluna, quero deixar bem claro a gratidão que eu devo a Universidade Estácio de Sá, tanto como profissional, pois eu trabalhei lá e deixei grandes colegas e alguns amigos que levo até hoje. E como aluno, pois sem ela eu não teria o meu diploma de ensino superior.

Pois bem...

Mas as épocas eram outras. Eu trabalhei no Recursos Humanos da Estácio durante 2 anos, entre 2005 a 2007. Nesse último ano, a empresa estava se preparando para abrir capital no mercado financeiro, se estruturando para se tornar uma S/A. Não sei detalhes técnicos pois não é minha especialidade, só sei que era isso que aconteceu de fato. Houve até uma auditoria para analisar e redesenhar todos os processos internos da empresa, procedimento que toda uma empresa de porte grande privada está sujeita a acontecer.

Pois é...

Ao final do ano de 2007, por um provável consenso entre dos conselheiros superiores da empresa, foi ordenado a demissão em massa na empresa. Eu fui um deles.

Recebi a carta de demissão, assinei, fiquei chateado obviamente, mas antes de ir embora em definitivo o meu gerente se despediu de mim e pediu para que eu comparecesse numa reunião em janeiro de 2008 em que o patrono da empresa (in memoriam) faria com os demitidos, quem quisesse comparecer pois era facultativo. Fiquei bastante curioso nesta reunião e resolvi ir; afinal nunca tinha visto ele, era para mim quase que uma lenda, tipo uma mula sem cabeça dono de uma empresa.

Pois bem...

Resolvi comparecer a reunião, encontrei com o meu (ex) gerente, ele agradeceu por eu ter comparecido e eu sentei para aguardar. Não sei exatamente o total de demitidos mas acredito que nem 1/3 dos demitidos compareceram. Depois de uns 20 minutos após a hora marcada, o patrono entra na sala, bem quieto e se juntou na frente de todos para falar. Explicou desde a fundação da Estácio até os momentos em que a empresa estava passando. E ao final garantiu que todos os desligados seriam readmitidos da empresa durante o ano de 2008. Sinceramente as palavras dele não me comoveram, teve pessoas que até o aplaudiram; mas um fato eu fiquei surpreso. Antes de ir embora o meu (ex) gerente me pediu para aguardar uma ligação em fevereiro.

Pois é...

Recebi uma ligação do RH em fevereiro, conforme o meu (ex) gerente prometeu, me perguntou se eu tinha interesse numa possível volta a empresa. Como eu ainda não tinha terminado a faculdade, optei que sim e fui para uma entrevista numa das unidades acadêmicas, na época era a unidade Nova América, localizada dentro do shopping de mesmo nome. Fui bem recebido pelo gerente administrativo, tivemos uma conversa ótima, ele não escondeu as realidades que a filial estava passando (inclusive o salário menor que eu tinha, óbvio!) e mesmo assim aceitei o desafio. Era um horário em que daria para me dedicar mais aos estudos, conciliou que eu pudesse fazer mais disciplinas e consegui terminar a faculdade antes da minha previsão. Lá também deixei grandes colegas e alguns amigos que levo até hoje.

Pois bem...

Contou, relatou, e daí?

Quero explicar que o capitalismo é agressivo e cruel, mas as tomadas de decisões não podem ser feitas através de resultados e metas em planilhas sem contar com o aspecto humano, pois são as pessoas que movem a engrenagem das empresas, a mecatrônica está substituindo cada vez mais funções em detrimento dos humanos, talvez daqui a umas décadas a inteligência artificial assuma tomadas de decisões, o que na minha opinião será o caos mundial.

Pois é...

A Estácio em âmbito nacional, demitiu de maneira inadvertida, aproximadamente 1.200 professores, cerca de 12% de todo seu corpo docente, em favor da nova Reforma Trabalhista é um desastre sem tamanho. Foram centenas de profissionais competentes, dedicados e muito qualificados, que foram dispensados da forma mais cruel possível. Essa Reforma Trabalhista é uma semi-escravidão institucionalizada, praticamente o Congresso Nacional rasgou a Consolidação das Leis Trabalhistas. Isso está sendo inadmissível, uma afronta contra os direitos trabalhistas; e o que a sociedade faz? Nada! A sociedade está anestesiada, me dá a impressão que está chancelando todas as reformas que estão prejudicando a nós mesmos.

Pois bem...

Não estou surpreso com a quantidade de amigos que estão sendo DEMITIDOS nesta reta final de ano. Parabéns aos paneleiros e depreciadores da democracia, a Reforma Trabalhista ainda poderá bater na sua porta.

Pois é... Universidade Estácio de Sá.

Pelo menos na minha época o patrono (in memoriam) deu a cara a tapa, como empresário ele não tinha a menor obrigação de fazer aquilo, correria o risco até de tomar uns tapas, mas saiu aplaudido. Desta vez com a variação de resultados, planilhas, metas, Kpi´s, atribuições; acredito que até o telegrama de desligamento foi suspenso por contenção de despesas. Na minha época eu recebi todas as verbas rescisórias e FGTS sem problemas. Desta vez não podemos garantir aos atuais desligados.

Pois bem... Universidade Estácio de Sá.

De acordo com nota da assessoria de imprensa da companhia, "todos os profissionais que vierem a integrar o quadro da Estácio serão contratados pelo regime CLT, conforme é padrão no grupo". A nova lei trabalhista formalizou o trabalho intermitente, permitindo que as empresas criem um banco de funcionários que podem ser acionados quando houver demanda.

Pois é... Universidade Estácio de Sá.

Que tiro no pé hein...





























BIO


Thiago Muniz é colunista do blog "O Contemporâneo", dos sites Panorama TricolorEliane de Lacerdablog do Drummond e Mundial News FM. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.





segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Lá. Eles. Aqui. Nós. (Por Elika Takimoto)

O Brasil é enorme e bem poderia ser dividido ao meio. 

De um lado, mortadelas. Do outro, os coxinhas. A divisão já existe, só iria ser física, ou seja, além do campo das ideias. Aí, quem sabe, teríamos mais paz.

Veja bem. Quem apoiou o golpe, quem até hoje não enxerga o golpe, quem votou no Aécio ficaria de um lado. Quem denunciou desde o início o ataque à democracia, do outro.

Cada lado teria seu próprio presidente.

A galera que odeia PT ficaria com as escolas dominadas pelos projeto “Escola sem Partido”. Nessas escolas, os professores só passariam os conteúdos que sempre foram doutrinados a passar. Não promoveriam debates e nem incitariam os alunos a se revoltarem contra as mazelas do mundo porque se assim fizerem serão denunciados pelos próprios alunos. Os professores ou nada comentariam sobre o tema ou falariam que o mundo é assim, sempre foi assim e cabe ao aluno estudar muito para sobreviver a esse sistema.

Do outro lado, teríamos escolas em que debateríamos sobre desigualdade social, as diversidades do ser humano, quem quisesse ir de saia poderia ir de saia fosse homem fosse mulher fosse sem definição, primaríamos por um ensino coletivo e não individualista, prepararíamos o cidadão não somente para o “mercado de trabalho” mas, principalmente, para conviver com o próximo e consigo mesmo trabalhando sua auto estima o máximo que conseguiríamos. Jamais falaríamos para um jovem que ele tem que estudar para “ser alguém na vida” porque todos nós já somos um universo de potencialidades independente da idade, da classe social e do credo. Ensinaríamos que se deve estudar porque só o conhecimento transforma a si mesmo e o mundo.

Do lado de lá, as pessoas que nunca foram a museus não precisariam se preocupar porque lá não teria museus. Os prefeitos que fecharam os locais das exposições continuaria a fechar outros e ninguém se importaria. Pelo contrário. Ficariam felizes porque os artistas não estariam “mamando na Lei Rouanet”. Toda essa galera lá.

Daqui teríamos a arte como sempre muito incentivada em suas infinitas formas. Continuaríamos torcendo o nariz para muitas obras mas jamais proibiríamos o artista expressar o que pensa.

E já que estamos falando de artistas, aqui teríamos Chico Buarque, Fernanda Montenegro, Wagner Moura, Duvivier, Xico Sá, Raduan Nassar. Lá, Lobão, Roger, Luana Piovani, Zezé e Luciano.

Lá. Bem longe daqui.

Aqui Paulo Freire. Pedagogia do Oprimido na veia. Lá Alexandre Frota ditando o que deveria ser ensinado para os jovens daquela metade do Brasil.

Do outro lado, capitalismo capitalismo capitalismo por todos os lados. Eles que falam que o socialismo não deu certo em nenhum lugar do mundo e desconsideram que só no continente africano 236 milhões de pessoas passam fome – de acordo com dados da ONU – e o número de suicídios em países considerados grandes potências na economia, eles continuariam tentando dar certo. Lembrando que aquele lado estaria pleno de pobres. Os pobres de direita.

Eles ficariam com esse sistema que pode ser definido, de forma resumida, como o sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção, na livre iniciativa e, sobretudo, na busca incessante por lucro. Como vivendo nesse sistema eles acabariam com a desigualdade social que é a liga que mantém o capitalismo um sistema sólido seria um problema só deles. Lá a concorrência continuaria sendo desigual pela natureza do capitalismo que privilegia aquele que já possui capital em detrimento daquele que nada tem. A elite lá ficaria bem consolidada e, claro, cada vez mais ávida por mais lucro.

Aqui deste lado não. Estaríamos buscando um novo sistema partindo do pressuposto de que toda a desigualdade social pode ser evitada por meio de atuação estatal e políticas públicas acertadas. Seria um sistema que não giraria em torno do Capital e do lucro pois entendemos que algo assim pode não trabalhar em favor dos princípios democráticos.

O comunismo seria um sonho que nos movimentaria de alguma forma, pois é o sistema que surgiu com o propósito de eliminar a desigualdade – e as próprias classes sociais – através da coletivização dos meios de produção.

Ah sim. A bancada evangélica ficaria lá. Claro. Aqui teríamos a convivência pacífica de todas as religiões já que a tolerância seria muito debatida em nossas escolas. Mas os valores morais de cada religião jamais transpassaria os muros das Igreja, muito menos chegaria ao nosso congresso e jamais em nossas escolas.

Lá a diminuição da maioridade penal já teria passado. O garoto de 16 anos pego assaltando seria preso e colocado nas celas com bandidos profissionais. Seria estuprado, aliciado para o crime, levaria muita porrada e em menos de dez anos, como previsto na lei, voltaria para a sociedade. Certamente, um ser renovado e pronto para cometer crimes muito piores. Direitos humanos continuariam sendo motivo de piada ainda assim para aquele lado do Brasil. Vai entendê-los…

Aqui investiríamos tudo o que tivéssemos em educação, arte e esporte. Somente por essa via o ser humano se transforma em um cidadão mais sensível e conseguiríamos mudar a sua essência. Bandido bom é bandido reabilitado. Esse seria nosso lema.

Lá. Ana Paula do vôlei. Aqui. Joanna Maranhão.

Lá. Malafaia. Aqui. Leonardo Boff.

Lá. Marta Suplicy. Aqui. Marcia Tiburi.

Lá. Constantino. Aqui. Sakamoto.

Lá. Janaína Paschoal. Aqui. Qualquer uma de nós em seu lugar.

Lá. Bolsonaro...

Aqui ficaríamos com aquele que é reconhecido no mundo inteiro por ter diminuído a mortalidade infantil e a desigualdade social. Ele. No meio do povo sempre conversando olhando nos nossos olhos como só ele sabe fazer. Aqui. Lula.





Elika Takimoto é Doutora em Filosofia pela UERJ. Mestre em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia pela UFRJ. Graduada em Física pela UFRJ, Professora e Coordenadora de Física do CEFET/RJ. Integrante do grupo de pesquisa Estudos Sociais e Conceituais de Ciência, Sociedade e Tecnologia.